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quinta-feira, 3 de abril de 2014

O segredo de Oxum


O nascimento de um rio não acontece quando a água brota do solo e segue pela superfície da terra. Antes disso, uma seqüência de fatos desencadearam e influenciaram esse processo. Existe por traz do nascimento de um rio um enorme fundamento.
     Primeiro Olorum através do sol aquece a água dos lagos e oceanos, Oxumarê com seu arco-íris, leva a água em forma de vapor para as nuvens que ficam carregadas, Xangô anuncia com seu trovão, que Iansã está juntando ás nuvens com o vento mágico que surge quando ela balança suas saias, quando as nuvens estão todas arrumadas, Xangô lança o Edun-Ará (pedra de raio) sobre a terra avisando a Odudúa que prepare seu ventre, pois a chuva irá cair, Ossãe pendura suas cabaças em Iroko para conter o líquido maravilhoso da vida.
     O momento sublime acontece, numa sintonia perfeita de toda a natureza, a chuva cai, trazendo consigo toda força do céu e alimentando toda a terra, Odudúa absorve todo o líquido e cria um enorme lago no interior da terra, seu ventre, quando a água acumulada se enche de força mineral (axé), Odudúa abre seu ventre e dá vida à majestosa Oxum, que brotará do solo e deslizará sobre seu leito levando vida por toda a superfície da terra, mais a frente água se acumulará de novo e tudo começará novamente.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Os Romeiros – 3ª Parte





O Sol mostrou-se radiante no céu azul e claríssimo, refletindo-se na superfície da estrada manchada de óleo e sangue. Enquanto nove dos falecidos eram sepultados no modesto cemitério de Itaperica, outros seis cadáveres seguiam de canoa para a outra margem do rio, a fim de serem enterrados no seu lugarejo. Num gesto que fez todos chorarem, "seu" Jeremias estendeu a tarrafa sobre o corpo do velho Favoreto, cujo destino implacável o havia impedido de pescar alguns cascudos na bacia rasa do rio da Várzea, junto à ponte das Araras. A noite chegou, outra vez pontilhada de estrelas a luzirem indiferentes sobre a quietude das águas do rio das Pedras.
Itaperica dormia, mas em alguns lares diversas criaturas choravam os parentes acidentados no desastre da serra do Gancho. No entanto, espíritos familiares dos desencarnados também haviam se exaurido em prestar-lhes toda assistência possível no mundo espiritual. Quase todas as vítimas da trágica romaria, já haviam sido acomodadas em postos de socorro situados nas adjacências da Crosta terráquea. Algumas delas mostravam-se agitadas sob o impacto da morte violenta, e outras imobilizavam-se numa espécie de "choque" psíquico. Entidades benfeitoras dispendiam todos os recursos para livrar os desencarnados da "queda específica" na direção dos charcos do astral inferior, embora se tratasse de almas primárias e bastante presas às algemas da carne animal. Decorridas algumas semanas, os espíritos mais calmos foram encaminhados para as moradias astrais de sua ascendência espiritual, situadas na área astralina brasileira.
Gumercino, o cérebro organizador da romaria fatídica era o principal personagem daquele drama inesperado. Sua esposa, dona Merenciana, não quisera acompanhá-lo na excursão, alegando "maus pressagies"; Gabriel, seu cunhado, chegara atrasado e depois benzia-se pela boa sorte. Bonifácio tinha alegado o impossível para escapar da tragédia que estava a pressentir no âmago de sua alma; mas a esposa obrigara-o a ir de qualquer modo, para depois chorar inconsolável de remorso. Gumercino abriu os olhos, lentamente, e pôs-se a examinar o quarto singelo onde se encontrava, estranhando a claridade fosforescente. Descansava em cômoda poltrona de assento tão macio como espuma; um cobertor leve o aquecia produzindo um efeito vitalizante, pois sentia um frio cortante quando se descobria. Os pés estavam apoiados num respaldo revestido de algodão. Ao lado havia uma jarra cristalina com um líquido róseo, escuro, muito parecido ao suco de morango; junto à janela de caixilho de alumínio brilhante, balouçavam- se duas cortinas branquíssimas rendilhadas de bordados verde-malva agradabilíssimos.