O
Sol mostrou-se radiante no céu azul e claríssimo, refletindo-se na superfície
da estrada manchada de óleo e sangue. Enquanto nove dos falecidos eram
sepultados no modesto cemitério de Itaperica, outros seis cadáveres seguiam de
canoa para a outra margem do rio, a fim de serem enterrados no seu lugarejo.
Num gesto que fez todos chorarem, "seu" Jeremias estendeu a tarrafa sobre
o corpo do velho Favoreto, cujo destino implacável o havia impedido de pescar
alguns cascudos na bacia rasa do rio da Várzea, junto à ponte das Araras. A noite
chegou, outra vez pontilhada de estrelas a luzirem indiferentes sobre a
quietude das águas do rio das Pedras.
Itaperica
dormia, mas em alguns lares diversas criaturas choravam os parentes acidentados
no desastre da serra do Gancho. No entanto, espíritos familiares dos
desencarnados também haviam se exaurido em prestar-lhes toda assistência
possível no mundo espiritual. Quase todas as vítimas da trágica romaria, já
haviam sido acomodadas em postos de socorro situados nas adjacências da Crosta terráquea.
Algumas delas mostravam-se agitadas sob o impacto da morte violenta, e outras imobilizavam-se
numa espécie de "choque" psíquico. Entidades benfeitoras dispendiam
todos os recursos para livrar os desencarnados da "queda específica"
na direção dos charcos do astral inferior, embora se tratasse de almas
primárias e bastante presas às algemas da carne animal. Decorridas algumas
semanas, os espíritos mais calmos foram encaminhados para as moradias astrais
de sua ascendência espiritual, situadas na área astralina brasileira.
Gumercino,
o cérebro organizador da romaria fatídica era o principal personagem daquele
drama inesperado. Sua esposa, dona Merenciana, não quisera acompanhá-lo na excursão,
alegando "maus pressagies"; Gabriel, seu cunhado, chegara atrasado e
depois benzia-se pela boa sorte. Bonifácio tinha alegado o impossível para
escapar da tragédia que estava a pressentir no âmago de sua alma; mas a esposa
obrigara-o a ir de qualquer modo, para depois chorar inconsolável de remorso. Gumercino
abriu os olhos, lentamente, e pôs-se a examinar o quarto singelo onde se encontrava,
estranhando a claridade fosforescente. Descansava em cômoda poltrona de assento
tão macio como espuma; um cobertor leve o aquecia produzindo um efeito
vitalizante, pois sentia um frio cortante quando se descobria. Os pés estavam
apoiados num respaldo revestido de algodão. Ao lado havia uma jarra cristalina
com um líquido róseo, escuro, muito parecido ao suco de morango; junto à janela
de caixilho de alumínio brilhante, balouçavam- se duas cortinas branquíssimas
rendilhadas de bordados verde-malva agradabilíssimos.