
João
Batista e Margarida mostravam-se exultantes, junto à pia de batismo na igreja
de Santo Antônio. O padre Marino, espanhol magriço e ossudo, arengava um latim
ininteligível e aspergia de água benta a Hortência, a primeira filha do casal.
Os patrões de João Batista, "seu" Marcos e dona Merenciana, sua
esposa, donos do armazem "Arco-lris", faziam as honras de padrinhos.
A festinha do batizado fora simples e pródiga de doces, salgadinhos, refrescos
e cervejas, terminando quase de madrugada, após muitas danças ritmadas pela harmônica
do Germano.
Hortência
era moreninha; de cabelos pretos, os olhos castanhos. Muito viva aos cinco meses.
Os pais pobres e o advento da primeira filha, embora significasse um acontecimento
auspicioso, aumentara as preocupações agravando o orçamento do lar.
Infelizmente, passado um ano do nascimento de Hortência, João Batista sentiu-se
mal no armazém, febril e com dores no baixo-ventre. Apesar das tisanas de
camomila, chá de losna e erva-doce, receitada pelas comadres vizinhas, o médico
foi chamado às pressas. Mas já era tarde, pois João Batista mal chegou ao
hospital falecia de apendicite com peritonite. Margarida, além de viúva, ficou grávida,
sem aposentadoria, sem seguro de vida ante a imprudência do esposo, nada
provendo para a família no futuro.
Decorridos
quatro meses da morte de João Batista, nascia Guiomar, outra menina morena, bem
nutrida, significando novos gastos. Margarida atirou-se decididamente à luta e
pôs-se a lavar, passar e serzir roupas para criar as filhas. Felizmente, elas
gozavam de boa saúde, mas à medida que cresciam, era fácil de se observar a
diferença entre o caráter e o temperamento de ambas. Guiomar, quieta e afável,
entretanto, de espírito calculista, sovina, exigindo recompensas pelo mínimo
favor prestado a qualquer um. Hortência, embora mais pródiga, era má e
irascível, além de orgulhosa.
Margarida
pedalava a máquina de costura durante o dia e pela madrugada afora, a fim de
obter o sustento mínimo da família. Infelizmente, má alimentação, trabalho
excessivo e fadiga, minaram-lhe a resistência orgânica, e a tuberculose tomou
conta dos pulmões. Nem chegou a sofrer os quadros trágicos da doença insidiosa.
Morreu em poucos dias, justificando plenamente os dizeres dos vizinhos:
"Margarida estava à beira do túmulo; a tuberculose unicamente lhe deu um
empurrão!"