...Mas,
dias depois, um acontecimento inesperado transfigurou Guiomar e encheu-lhe os olhos
de cobiça e avidez ante a fabulosa descoberta; em apenas uma hora, depois de
Hortência recostar-se na parede de um muro arruinado, fatigada de suas
andanças, dezenas de pessoas condoídas daquele quadro burlesco, despejavam
dinheiro, enfeites e até adereços de bom valor no regaço da infeliz. Era um
acontecimento inédito no lugarejo pobre onde viviam. Lá, ambas mal conseguiam
adquirir os meios para se alimentarem, pois nos últimos dias aceitavam roupas e
auxílios dos conhecidos mais generosos. À noite, Guiomar contou a féria e ficou
perturbada. Ali estava uma pródiga fonte de renda para si e a possibilidade de amealhar
dinheiro fácil, cabendo-lhe Unicamente a tarefa de custodiar a irmã aleijada.
No
princípio, tratou Hortência com fingida ternura e afabilidade, velando por sua saúde
e bem-estar, mas, decorridos alguns dias, o seu espírito mercenário e
calculista passou a explorar tôdas as circunstâncias favoráveis na especulação
da desgraçada irmã. Percebendo que o aspecto melhor de Hortência, também lhe
reduzia a féria diária, Guiomar negou-lhe os mínimos recursos de higiene e
bem-estar, cuidando propositadamente de lhe dar um ar lúgubre, grotesco e
trágico! Empurrava Hortência para os lugares de maior afluência de pessoas.
Fazia-a levantar de madrugada e impeliaa pela rua escurecida a fim de apanhar o
primeiro transeunte; e, altas horas da noite, ainda a sustinha nos pontos estratégicos
de boa renda e muita gente. Obsidiada pela mórbida especulação sobre a
deformidade da irmã, Guiomar às vezes transportava Hortência de automóvel, de
um canto para outro, a fim de apanhar festas de igreja, saída tumultuosa dos cinemas
ou término das novenas bem frequentadas. Largava-a quase aos arrastos na porta dos
templos repletos de fiéis, ou lhe apurava o trote largo pelas ruas da cidade,
na precipitação de alcançar a chegada de trens na gare ferroviária.
