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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

COMO “EXU” FOI ERRONEAMENTE ASSOCIADO AO DIABO?



PERGUNTA:  Como o fetichismo das crenças mágicas populares juntamente com o sincretismo, fez "exu" ser associado ao diabo, numa distorcida adoração ao demônio, como rito institucionalizado?



RAMATÍS:  A nação africana que mais influenciou a formação das seitas afro-brasileiras com seu fetichismo e suas crenças mágicas foi Iorubá.  Os escravos africanos, ao contrário dos índios, que não foram escravizados, idealizaram o sincretismo para poder realizar seus cultos nas senzalas. Inteligentemente, os orixás são santificados, correlacionados com os santos católicos mais conhecidos. [1] Após a alforria, essa situação se fortaleceu como forma de integração e legitimação numa sociedade regida pelo catolicismo.


[1] Nota do médium - Na época da escravatura, os negros eram obrigados a seguir o catolicismo. Quando batizados, recebiam um nome português e tinham de freqüentar as missas aos domingos. Os sacerdotes iorubás, entre outras nações africanas que passaram a viver no Brasil, imediatamente identificavam cada santo com alguma das personagens que ilustravam os orixás, aceitando esses santos prontamente, por sua índole espiritual mística e universalista. Posteriormente, o sincretismo teve a propriedade de favorecer a inclusão social da umbanda num momento de perseguição e preconceito. As primeiras tendas e os primeiros terreiros levavam nomes católicos com a finalidade de obter aceitação urbana. Ao contrário do início do processo sincrético, em que os negros "fingiam" adorar os santos católicos para não sofrer duras penas dos senhores, essa fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, após a libertação dos escravos, sofreu uma reinterpretação com o espiritismo, ocasião em que as fachadas das tendas e dos estatutos de fundação tinham a denominação "espírita" associada a um santo católico, para seus integrantes não serem perseguidos pela polícia. Durante a escravidão, quando os negros construíam seus altares, eram obrigados a colocar os santos católicos na parte superior, mas na parte inferior fixavam os fundamentos dos orixás (pedras, minerais, oferendas votiyas, ervas, entre outros símbolos) no chão de terra batida. Na hora de cultuar os santos, na verdade cultuavam os orixás e assim conseguiam realizar seus transes ritualísticos sem que o homem branco, o senhor ou o clérigo da vizinhança, os proibissem. Pode-se afirmar que até hoje os pretos velhos são matreiros para levar os consulentes a se modificarem e a fazerem aquilo que eles recomendam, bem como se mostram atilados quanto ao famoso engambelo, quando o que parece ser não é, principalmente quanto a processos obsessivos que envolvem entidades mistificadoras querendo se mostrar aos médiuns como espíritos do movimento de umbanda e não o são. É importante relembrar que nas raízes da fusão sincrética entre os orixás e os santos católicos está um hábito que até hoje é adotado nos templos de umbanda: chegar a um terreiro, saudar a entrada e depois o congá.



RAMATÍS: Tendo em vista a dualidade da escolástica católica (Deus e diabo), os orixás, tendo sido santificados, inevitavelmente faltava encontrar a figura representativa do diabo. É assim que se instala nas populações periféricas, pobres, incultas e assustadiças, constantemente ameaçadas de serem jogadas nos caldeirões fumegantes do inferno, a demonização "exu", que se alastra rapidamente com o apelo mágico que o envolve. No contexto cultural brasileiro, hegemonicamente católico, esse conceito de "exu" é o que mais influenciou o imaginário popular e passou por distorções em conseqüência da amplitude do processo de inclusão social dos cultos que saíram do interior das senzalas e ganharam as ruas e os morros, sendo transfigurado no diabo pelo candente sincretismo.
Para entenderdes a origem ancestral da questão, importa dizer que para os povos iorubás, e de certa forma até os dias atuais, nos clãs tribais, em que os homens são livres para ter muitas mulheres, quanto mais filhos tiverem, melhor. O sexo significa procriação, progresso, sendo cultuado o "exu" Elegbá ou Elegbara, que simboliza a fertilidade, entre um conjunto de divindades de sua religiosidade politeísta, todas reverenciadas com valor evocativo, mágico ou místico.
Assim, num meio social em que o sexo e suas conotações eram fortemente reprimidos e associados ao pecado, o lado fértil desse "exu" foi muito dissimulado. A imagem forjada pela conservadora sociedade católica, ao contrário da liberalidade desprovida de culpa, autoflagelação e penas eternas dos iorubás, extirpou o esplendor reprodutivo do explícito Elegbá ou Elegbara, tradicional no panteão africanista, distorcendo ao máximo os símbolos de fertilidade, bem como o foi Príapo, deus greco-romano igualmente classificado como herético pela Inquisição.