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quarta-feira, 13 de maio de 2015

ANJOS REBELDES - I





Uma doce claridade banhava a formosa e terna paisagem imersa numa cor de suave rosa-lilás mesclado de alguns revérberos argênteos. A clareira atapetada pela grama suave verde era cercada de pequenos bosques de arbustos anões, mas recamados de flores na forma de campainha, de um matiz azul turqueza e veludoso, decorado pelos estames de um branco lirial na corola, que exalavam o agradável perfume do jasmim terreno. Inúmeros bancos recortavam-se caprichosamente na própria vegetação de um verde-escuro, cujas folhas miúdas lembravam sensitivas esmaltadas de estrias esbranquiçadas. O conjunto formava delicado anfiteatro a convergir para um estrado de substância translúcida de cor topázio. Sobre o mesmo havia uma espécie de mesa, num belo matiz salmão, com um jarro de líquido esmeraldino e ladeado por uma poltrona.
Ao fundo desse panorama do astral superior, percebia-se a moldura cinza lilás das colinas sobressaindo-se à luz cambiante irradiada pelo Sol. A direita, pequenino lago de água prateada e marchetada pela irradiação das flôres, recortava-se na forma de delicado coração emoldurado pelo cinturão de papoulas vermelhas a cintilarem como fogaréu vivo. Algumas árvores de fôlhas sedosas e finas, num matiz verde palha lembrando aos chorões terrenos, pendiam a vasta cabeleira sobre o lago. A esquerda, o solo descia em brando declive, pejado de arbustos pequeninos e carregados de flores miúdas, cujo miolo encarnado brilhava à semelhança de rubis vivos entre as pétalas rosadas.
Cariciosa melodia, em doce cavatina, esvoaçava sare a paisagem sublime e agradável, provinda de violinos e violoncelos invisíveis tocados por mãos angélicas e sob o contra-canto de vozes infantis, que fortaleciam a venturosa paz dê espírito.
A doce harmonia ainda vibrava no ar, quando se ouviu vozes aproximando-se acompanhadas de alguns risos e exclamações. No cenário maravilhoso, junto ao lago e anfiteatro de bancos recortados na própria vegetação sedosa verdejante, surgiram doze espíritos nimbados de luzes coloridas. A seguir rodearam um velhinho de cabelos esbranquiçados, compridos e' cortados à nazarena, a barba curta e repartida ao meio. As feições rosadas davam-lhe o aspecto de uma figura de porcelana translúcida. Vestia uma túnica alva até os pés, cuja barra larga era bordada de relevos em azul índigo, lembrando as volutas e os rendilhados das roupas assírias. Ele calçava sandálias franciscanas, mas pretas e bordadas com fios dourados. Apesar da figura idosa era lépido e seguro nos movimentos. Os olhos eram vivos e claros, como duas esmeraldas líquidas à sombra dos supercílios nevados.
Ele se distinguia dos demais espíritos pela intensidade de luz e dos reflexos de cores semelhantes ao arco-íris a refulgir-lhe até a altura do peito, esbatendo-se, depois, num amarelo dourado em torno da cabeça venerável As próprias mãos despendiam eflúvios safirinos e lilases, colorindo um comprido rolo que ele segurava, muito semelhante aos papiros egípcios.
Quando todos os presentes se acomodaram nos bancos verdejantes, o venerável ancião iniciou a palestra: (1)
— Eis as recomendações que enderecei à Terra, ao grupo espírita mediúnico "Os Nazarenos", a fim de se esclarecer, em definitivo, a questão do espírito só "ganhar luz" à medida que evolui. A luz é inata a todo ser e não provém de qualquer condição graduativa posterior e conquista pessoal extemporânea.
--- Já era tempo! — redarguiu outro espírito, um belo jovem envergando rico peplo côr de âmbar, cujos cabelos negros, e sedosos eram atados por um laço a "la grega".
--h Não ignoramos que ainda são poucos os terrícolas realmente interessados no conhecimento sensato e lógico da imortalidade. Os estudiosos ligados às nossas colônias siderais, em serviço de esclarecimento na Crosta, queixam-se da hipnose dos próprios espíritas, bastante escravos das paixões transitórias do reino animal.