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sábado, 14 de setembro de 2013

O QUEBRA OSSOS – 1ª Parte.






 
— Paulo! Chame a ambulância! Ligeiro, homem! Matias está quebrado, lá embaixo!
Os operários desciam dos andaimes, apressados, pela escada improvisada de madeira tosca; os mais afoitos escorregavam pelas cordas. Sobre retalhos de sarrafos, ripas e tábuas de pinho, jazia um homem de bruços, imóvel, gemendo, sem que alguém se animasse de tocá-lo, tais eram os gritos lancinantes que soltava ao tentarem socorrê-lo. Vinte minutos depois se fez ouvir o uivo estridente da ambulância correndo amalucadamente pelas ruas de S. Paulo, aproximando-se do "local do acidente. Chegou e partiu dentro de alguns minutos levando a vítima, na qual o médico responsável pela tarefa constatou várias e dolorosas fraturas ósseas.
— Não sei o que há com esse homem! — dizia "seu Joaquim", o feitor, quando prestava declarações no inquérito formal da companhia seguradora. Essa é a sétima vez que Matias se acidenta em nossa firma, durante onze anos de serviço. Até parece mandinga, pois ele se quebra todos nos ossos. — E numa sugestão desconsolada, aduziu — Creio ser tempo dele se aposentar!
Matias não podia ser exonerado sem o consentimento do "Sindicato de Construções Civis", porquanto era empregado estável, com mais de dez anos de trabalho na mesma firma. Realmente, em onze anos de trabalho acidentara-se sete vezes, caindo de andaimes, de escadas e do caminhão que servia para o transporte de materiais. Então ele ficava engessado algumas semanas, no hospital. Houve casos em que os médicos ajustaram os ossos de modo deficiente, e o infeliz teve de ser quebrado outra vez, para retornar à forma normal. Haviam-no apelidado de "quebra ossos", e a quantidade de chapas radiográficas que ele possuía era suficiente para comprovar uma das mais tristes histórias de sofrimento e azar!
Vinte dias depois desse último acidente, Matias obtinha alta do hospital e se apresentava novamente ao serviço. O capataz olhou-o, de fisionomia azeda e desconsolada.
-Homem de Deus! Por que você não se aposenta duma vez? Que adianta trabalhar assim, se vive mais no hospital, todo quebrado?
— Que é que vou fazer, seu Joaquim? Tenho mulher e cinco filhos. O que o instituto paga não dá nem "pro" sustento, quanto mais "pro" futuro? Encolheu os ombros, desacorçoado:
— Pode ser sina, não digo que não; mas se Deus quer assim, que vou fazer? Um dia isso termina, nem que seja mesmo com a morte!
— Qual, homem! — atalhou Joaquim, o capataz. — Desse jeito você ainda vira farinha de ossos!
Joaquim, apesar de enérgico e rústico, era dessas almas simples e laboriosas, malgrado enfrentar os tipos mais ordinários em sua função espinhosa de feitor. Tirou o chapéu e passou a mão pelos cabelos, numa arrumação pensativa; em seguida, decidido, deu um leve empurrão em Matias, como a disfarçar a sua boa intenção:
— Vai, homem! Você daqui por diante fica na guarita, apontando os empregados e controlando os caminhões de carga. — Abrindo-se num sorriso satisfeito, arrematou, sem maldade: — Acho que do chão você não passa!