Despachos em
encruzilhadas urbanas, nas praças, nas esquinas dos bairros, sempre foram
motivo de polêmica. Uns se assustam e desviam, outros criticam, julgam e
condenam e tantos outros curiosos desrespeitam, abusando da própria sorte, em
nome da “santa” mãe ignorância!
A história que vamos
contar relata exatamente o que acontece a muitos incautos, que por imprudência
caem em suas próprias armadilhas, vítimas da intolerância e do desrespeito que
eles próprios cultivam em si.
Quem nunca ouviu uma
história assim que atire a primeira pedra!
Cássio, voltando da
balada com a turma de amigos, de madrugada resolveu encurtar caminho passando
por uma rua deserta, tarde da noite e ainda por cima pouco iluminada...
Estavam todos bêbados,
alegres e já desgastados pelos comes e bebes da festa em que estavam. Cansados
e precisando do sono reparador, retornavam para seus lares numa conversação
animada, porém desnecessária. Falavam alto, gesticulavam muito e faziam as
brincadeiras e as piadas próprias daqueles que não têm respeito pelos outros...
Em dado momento,
avistaram duas pessoas numa esquina, iluminadas por velas que estavam no chão.
Em silêncio comentaram aos risos que se tratava de um despacho, que no
vocabulário deles trataram por “macumba”. Reduziram os passos, discretos e
ladinos, esconderam-se atrás de um poste, observando atentamente até que aquelas
pessoas fossem embora.
Sem perder tempo e,
para não deixar de ser o menino “bobo da corte”, Cássio avançou ansioso para o despacho e lá
chegando, deu mais uma olhadela para assegurar-se de que ninguém mais o veria.
Olhou para os amigos que amedrontados lhe pediam constantemente para recuar,
fez uns gracejos, dançou e se balançou debochadamente, dando gargalhadas diante
do ebó...
Os amigos desconfiados
mantiveram distância, mesmo aos risos, mas Cássio queria mais... e infelizmente
cometeu um dos maiores erros de sua vida. Pegou uma garrafa de uma bebiba
alcóolica junto ao despacho e a bebeu, depois riu e chutou os objetos
depositados ali! Chutava e destruía o que podia e correu atrás dos amigos que
por medo e de certa forma, respeito, evadiram-se do local.
Ele até que insistiu
para que os amigos tomassem um gole da bebida,
mas ninguém se candidatou, embora todos comentavam freneticamente sua
coragem de mexer “naquelas coisas”! Riram, debocharam e enfim, chegaram em seus
lares.
Algumas horas depois
Cássio despertou cansado, com ressaca e confuso, não se lembrava do ocorrido.
Ainda estava com as roupas que chegara da rua. A cabeça doía e os músculos
pareciam atrofiados, nada que um bom chá da mamãe não resolvesse.
Algum tempo depois...
O rapaz estava doente, seus
pulmões encheram-se de água! Diante da gravidade
inesperada de sua doença, fora internado. Nenhum medicamento lhe colocava novo
em folha! Os antibióticos pareciam não surtir efeito em seu organismo
debilitado. Vivia internado e já havia perdido mais de seis quilos!
Os amigos iam lhe
visitar no hospital e um deles assustadíssimo com a magreza do jovem, lhe fez
lembrar que tudo aconteceu depois que destruiu o tal despacho! Cássio sentiu um
frio enorme correr-lhe pela espinha, lembrando-se da cena que lhe passava pela
tela mental com uma nitidez assustadora. Sentiu medo pela primeira vez, mas
soube disfarçar para os amigos, afirmando que não fora por isso, dando-lhes um
sorriso amarelo.
Ao ganhar alta médica
depois de ficar de molho mais de uma semana no hospital, ainda enfraquecido e
proibido terminantemente de expor-se ao
frio, a chuva, entre outras recomendações médicas, o rapaz sentia-se deslocado
e infeliz. Uma tristeza enorme lhe preencheu o peito e um frio mórbido
percorria-lhe a espinha, seguidos de calafrios.
Recuperando-se em casa
e já esperançoso de fortalecer-se, desejou dormir um sono tranquilo. Mas os
pesadelos de sempre lhe retornavam a mente e Cássio despertava suarento e
assustadiço.
Entrou em depressão,
parou de comer, não saia mais de casa nem para falar com os amigos, não
conseguiu reabilitar-se fisicamente e ainda por cima, pouco a pouco
desestabilizava-se psiquicamente.
Passou a andar pela
casa de madrugada com insônia, estava cada vez mais magro e perturbado. A
fraqueza física era tanta, que o rapaz já não se movia sozinho, precisa que algum familiar lhe auxiliasse
nesta tarefa que antes, bem antes de tudo isso acontecer, lhe parecia fácil.
Sentindo-se como um idoso,
em profunda depressão e a beira de um colapso mental, caiu em prantos
desesperadamente, no colo da avó, pedindo-lhe socorro!
Aquela senhora lhe
ouvia comovida os apelos dolorosos, enquanto tentava concatenar as ideias. E
por fim, depois de lhe ver em profundo desespero e as raias da loucura, tomou a
decisão de leva-lo a um centro espírita, o qual frequentou algumas vezes.
Mesmo a família sendo
católica, resolveu concordar, pois diante de tal fato sentiam-se impotentes e
de mais a mais, já sabiam que Cássio havia desrespeitado o culto alheio, numa
madrugada dessas...